Abre-se o jornal ou
liga-se a TV e dá-se de cara com alguma notícia sobre um sujeito que realizou
algum ato absurdo por causa de um surto psicótico. Em geral, são notícias
desagradáveis, que envolvem atos de violência. Podem se referir a pessoas
consideradas sadias até que vieram a ter o surto ou a indivíduos que
sabidamente faziam uso de alguma substância ilícita no momento da perturbação.
O que pouco se diz é
o que vem a ser de fato o surto psicótico. O que quer dizer a pessoa ter um
surto psicótico? Quais são as suas causas? Isso é o mesmo que ser psicopata???
Esclareça as suas
dúvidas com o psiquiatra Dr. Deyvis Rocha:
1. O que é surto
psicótico?
Vamos analisar cada
palavra separadamente. Surto quer dizer “impulso arranco”, algo que surge de
maneira súbita, mudando o status quo de uma situação. Falamos por exemplo em surto de dengue quando
começamos a ter, em pouco tempo, um grande aumento do número de casos da
doença.
A palavra psicótico
vem de psicose, termo que tem raízes históricas. O seu sentido sofreu algumas
alterações ao longo do tempo. Em meados do século XIX, quando foi pela primeira
vez empregada na literatura psiquiátrica, psicose servia para enfatizar as
manifestações psíquicas das doenças cerebrais.
Ela já foi empregada como sinônimo de doença mental e de insanidade,
também para referir-se às doenças mentais com alterações do cérebro, e hoje em
dia é usado, como adjetivo, para qualificar os sintomas de delírios e
alucinações.
Então, surto
psicótico é quando a pessoa passa a apresentar, de maneira súbita, os sintomas
de delírios e alucinações. Não confundir a palavra psicótico com psicopata,
pois, apesar de serem foneticamente parecidas, significam coisas bastante
diferentes.
2. O que são delírios
e alucinações?
Os delírios são
juízos falsos da realidade, produzidos de maneira patológica. Em termos mais
claros, os delírios indicam que a pessoa está com alterações do pensamento que
a fazem acreditar em coisas que não existem. A pessoa pode crer que está sendo
perseguida por outros que lhe querem fazer algum mal, prejudicá-lo e até
matá-lo, sejam policiais, sejam bandidos, sejam os vizinhos, ou mesmo os
familiares. Ou a pessoa pode achar que nas ruas os outros estão falando ao seu
respeito, mesmo quem não o conhece, que câmeras de TV o vigiam que os telefones
estão grampeados. Pode também pensar que podem ler o seu pensamento, que a
televisão lhe manda mensagens. Pode ser
um delírio de ciúme, em que a pessoa tem certeza de estar sendo traído, ou um
delírio erotomaníaco, em que a pessoa pensa que é amada por outra pessoa, em
geral famosa ou mais rica.
As alucinações são
alterações do senso percepção. Nós adquirimos conhecimento do que está ao nosso
redor através do percebemos pelos nossos cinco sentidos, a visão, a audição, o
olfato, o paladar e o tato. Uma
alteração cerebral pode fazer com que possamos perceber coisas que na verdade
não existem, como ouvir vozes de pessoas conversando, sendo que não há ninguém
falando. O mesmo funciona para os demais sentidos, podemos ver coisas que não
estão lá, sentir cheiros e gostos desagradáveis, além de sentir toques ou
beliscões que não existem. Não é que a pessoa está imaginando uma voz ou outra
sensação, ela realmente está ouvindo, mas essa é uma produção do cérebro
doente.
3. A pessoa em surto
pode ficar violenta?
A resposta é sim e
não. Vai depender da reação da pessoa
frente a essas alterações descritas acima.
Vejam bem, quem está
pensando que está sendo ameaçado por outros, que os seus passos estão sendo
vigiados, que todos falam ao seu respeito nas ruas, que pode ser morto a
qualquer instante, não vai ficar impassível. Soma-se a isso as vozes
ameaçadoras que se ouve, como por exemplo, “você vai morrer”, ou xingamentos da
pior espécie. Em primeiro lugar, a pessoa vai ter medo, muito medo (algumas
pessoas acham que isso é transtorno do pânico). Daí, a pessoa pode reagir
ficando em casa escondido, sem sair do seu quarto por nada, ou vai brigar para se proteger, no que passa a
agredir com palavras ou até fisicamente quem ele pensa que é o seu agressor.
Parece ter sido esse o caso do sujeito que causou confusão em São Paulo no
começo da semana.
Estudos mostram que
os pacientes com transtorno psicótico não cometem mais atos de violência do que
a população normal. A maior parte dos atos de violência nos pacientes acontece
quando, além dos sintomas psicóticos, eles estão sob o efeito de alguma droga,
como maconha ou cocaína.
4. Eu posso ter um
surto psicótico?
O surto psicótico
está presente em algumas doenças mentais, como a esquizofrenia, o transtorno
psicótico breve, o transtorno bipolar, a depressão grave, a demência, entre
outros. A não ser pela demência, que costuma aparecer em idade mais avançada,
os outros transtornos, mesmo que geralmente comecem entre o final da
adolescência e início da idade adulta,
podem acometer pessoas de todas as idades.
Quem tem parentes com
doenças que cursam com transtorno psicótico tem mais risco de desenvolver
também um surto do que pessoas que não têm parentes acometidos.
O uso de substâncias,
como a maconha e a cocaína, ou mesmo algumas medicações, como corticoides,
podem desencadear surtos. A maconha está particularmente relacionada à
esquizofrenia, pois pessoas com predisposição genética que a usam na
adolescência podem desenvolver essa doença.
5. Há jeito de
prevenir o surto?
Mesmo que a eclosão
dos delírios e alucinações se dê de maneira subida, é possível sim identificar
algumas alterações que precedem o desencadear do surto psicótico.
Quem geralmente
percebe isso é alguém bem próximo da pessoa, como os pais ou companheiros, que
notam que ela começa a agir de maneira diferente do seu habitual, está mais
irritadiça, dorme menos, às vezes manifesta preocupações com temas filosóficos
ou religiosos, passa a ir mal na escola ou no trabalho. Isola-se dos amigos,
perde o interesse em algumas atividades.
A própria pessoa pode
não se dar conta disso, mas pode começar a perceber as coisas que antes eram
triviais de uma maneira estranha. Antes de achar que está sendo perseguida ou
que há um plano diabólico contra ela, a pessoa percebe significados diferentes
nos gestos e nas falas das pessoas, passa a desconfiar de que algo está para
acontecer, mas ainda não sabe exatamente o quê.
Esse é o momento de
procurar a avaliação de um profissional, de um psiquiatra, que pode instituir o
tratamento antes que o surto se apresente de sua maneira mais exuberante.
Evitar o uso de
drogas também é importante para se prevenir o surto psicótico, principalmente
às pessoas que têm parentes com transtornos psicóticos. O uso de maconha e
cocaína deve ser desencorajado em todos os adolescentes.
6. Há tratamento para
o surto psicótico?
Sim, há tratamento, e
quanto mais cedo ele começar, melhor.
As medicações
antipsicóticas são as principais ferramentas em seu tratamento. Há vários
antipsicóticos, que podem ser classificados de acordo com o tempo em que foram
fabricados. Os de primeira geração são os mais antigos e os de segunda geração,
mais recentes. No entanto, não há diferença de eficácia comprovada entre os
diferentes tipos, há diferenças sim de efeitos colaterais. A escolha do
antipsicóticos a ser tomado vai depender do perfil do paciente e da experiência
de tratamento do médico.
Em
casos de transtorno afetivo bipolar, o uso de estabilizadores de humor também é
recomendável para o tratamento do surto psicótico.
Fonte – Médico
Psiquiatra Dr. Deyvis Rocha






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