
Os dois, deitados,
escondidos na
cabeceira
da pista do Aeroporto
de Brasília. Ao lado
deles, Rubens Paiva.
Às quatro da manhã,
movimento nenhum. Até
nele, no barulho suave do mato ralo em que
estava deitado,
Waldir prestava atenção.
Ouvidos atentos,
olhar vigilante.
Tensos, ele, Darcy e
Rubens não se
mexiam”.
Os três primeiros
parágrafos do livro Waldir Pires –
Biografia (vol.1), de autoria do
jornalista e escritor Emiliano José, a ser lançado às 17 horas da próxima
quinta-feira (14) no Palácio Rio Branco, dão uma ideia do clima de tensão e
incertezas que rondavam aquele sábado de abril de 1964, quatro dias após o
golpe militar que depôs o presidente João Goulart do poder.
Ex-Consultor Geral da
República do governo deposto, Waldir não teve alternativa senão fugir com Darcy
Ribeiro, chefe da Casa Civil. A ideia
inicial era ir para Porto Alegre, como previa o plano de voo feito pelo então
deputado Rubens Paiva (que viria a ser cassado dias depois), e participar da resistência ao lado de Goulart.
O cerco dos militares
na capital gaúcha mudaria os planos. Na mesma noite daquele 4 de abril, Goulart
desembarca no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai, e pede asilo político. No
dia seguinte, a bordo de um monomotor movido a gasolina de caminhão, Waldir e
Darcy pisam em solo uruguaio. Começava
ali o exílio de seis anos de Waldir , que também morou em Paris, onde lecionou
na Faculdade de Direito da Universidade
de Dijon e no Centro de Altos
Estudos da América Latina da
Universidade de Paris, junto com Celso
Furtado.
“Foram
os últimos a deixar o Palácio do Planalto naquela madrugada de 2 de
abril. O golpe entrou por uma porta para tomar posse – a presidência do STF,
presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli.... – e os dois (Waldir e Darcy) saem
por outra....”, descreve Emiliano, que por seis anos se desbruçou em pesquisas,
documentos, depoimentos, fotografias e redação.
Este primeiro
volume cobre o período que vai de 1926,
ano do nascimento de Waldir em Acajutiba
(BA), até o final de 1978, em pleno regime de exceção, quando termina a
vigência do Ato Institucional nº 5, e ele se dispõe a sair do Rio de Janeiro e voltar para a Bahia para
encabeçar a luta política. Isso foi em 12 de janeiro de 1979, início do segundo
volume biográfico, em fase de revisão, e que se estende até os dias atuais.
Publicado pela Versal
Editores e com orelha assinada por Dom Emanuel d’Áble do Amaral, arquiabade do
Mosteiro de São Bento – um dos símbolos da resistência contra a ditadura na
Bahia –, o livro descreve a infância em Amargosa, passa por Nazaré das Farinhas,
onde ele cursa o ginásio no Clemente Caldas; o Colégio Central, onde faz o
Clássico; e a Faculdade de Direito da Ufba, sendo o orador da turma de 1949.
Aos 24 anos,
Waldir é nomeado secretário do governo Regis Pacheco (1951/55), indicado
por Antonio Balbino, espécie de seu
preceptor na vida política. Balbino depois se elege governador e Waldir,
deputado estadual, sendo seu líder na Assembleia Legislativa. O livro mostra,
ainda, a eleição de deputado federal em 1958 pelo PSD, a campanha ao governo em
1962 e a derrota para Lomanto Júnior; a passagem como professor da UnB e sua
atuação como Consultor-Geral do governo Goulart.
Emiliano explica que
nesta função Waldir ocupou um papel
essencial. “Foi um dos sustentáculos teóricos e jurídicos de programas defendidos
pelo ex-presidente, como a reforma agrária, a nacionalização das minas de
ferro, e o monopólio da importação do petróleo”.
Amigo há 40 anos de
Waldir, que completa 92 anos em outubro, Emiliano diz que esta condição não o impediu de
exercitar a veia crítica. No segundo volume, por exemplo, avisa que não se
furtou a abordar um dos episódios mais
controversos da trajetória politica do hoje petista: a renúncia ao governo da
Bahia, em 1989, para disputar a vice-presidência da República na chapa do PMDB
encabeçada por Ulisses Guimarães.
“Foi o maior erro da
vida dele, inegavelmente”, afirma
Emiliano, ao se referir à entrega do mandato de governador ao vice Nilo
Coelho, depois da vitória estrondosa
sobre o arquiinimigo Antonio Carlos Magalhães (ex-PFL) que dominou a Bahia por
quase 40 anos.
O 1º VOLUME TRAZ FATOS DO NASCIMENTO E DO EXÍLIO ATÉ O RETORNO À BAHIA
O casamento com Yolanda
Waldir se apaixonou pelos ‘olhos azuis’ de Yolanda durante comício de comemoração pelo fim da 2ª guerra, na Praça Municipal. Em 1951, eles formalizam o casamento
Exílio com família na França
Waldir e Yolanda foram com os cinco filhos para Paris, após passarem dois anos no Uruguai – país que deu asilo político a Goulart e outros políticos após o golpe militar
Orador da turma de direito de 1949
Com um memorável discurso na tribuna do Fórum Ruy Barbosa, cuja inauguração se deu com formatura da turma da Ufba, Waldir defendeu a liberdade e a democracia
A TARDE
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