Luzes e ruídos de
motores vindos da rua assustam a mulher que dorme abraçada ao marido na
penumbra do quarto. Despertos, os dois espiam através das cortinas da janela da
sala. Diante da residência, estão estacionados carros e viaturas de onde descem
homens de terno escuro e semblante carregado. Ouvem-se fortes batidas na porta.
A cena é um dos momentos culminantes do
filme Lula, o filho do Brasil (2010), de Fábio Barreto. A partir de memórias de
Luiz Inácio Lula da Silva e Marisa Letícia – casal vivido no longa-metragem
pelos atores Rui Ricardo Diaz e Juliana Baroni -, reconstitui livremente a prisão
do então sindicalista, em 19 de abril de 1980.
Na época, Lula
liderava, no ABC Paulista, uma greve metalúrgica que deixara o país com a
respiração suspensa. Trinta e oito anos depois, um outro abril volta a deixá-lo
na iminência do encarceramento.
À biógrafa Denise
Paraná, autora do livro homônimo que serviu de base ao roteiro do filme, a
mulher do futuro presidente relatou momentos de tensão apenas sugeridos na
tela. “Marisa, em estado de pavor, temia que a polícia invadisse sua casa e
promovesse um massacre ali dentro, na frente das crianças”, escreveu Denise.
Não era medo de todo
infundado. A ditadura militar instaurada em 1964, que acabara de completar 16
anos, agonizava, mas não morrera. Prisões arbitrárias, torturas e morte haviam
se tornado frequentes. Um dos supliciados que escapara da morte no DOI-Codi, em
1975, era José Ferreira da Silva, o Frei Chico, sindicalista e irmão de Lula.
A atmosfera da época
foi registrada por Chico Buarque em Acorda Amor, prudentemente submetida à
censura como obra de compositores fictícios: “São os homens / E eu aqui parado
de pijama / Eu não gosto de passar vexame / Chame lá, chame o ladrão / Chame o
ladrão”.
Em 1980, a prisão de
Lula ocorrera sem mandado judicial. Simultaneamente, outras 12 pessoas ligadas
ao movimento sindical haviam sido detidas, incluindo os advogados Dalmo Dallari
e José Carlos Dias. Não se sabia ao certo quando eles poderiam ser libertados
ou por quais crimes estavam sendo encarcerados.
Em 2018, Lula poderá
se ver pela segunda vez atrás das grades – embora em condições muito
diferentes. Desta vez, a prisão pode ser o resultado de um processo judicial
que já se estende há quase dois anos e no qual o ex-presidente foi considerado
culpado de receber um apartamento tríplex no Guarujá como propina da
construtora OAS.
A sentença, já
confirmada em segunda instância, prevê 12 anos e 1 mês de detenção. Nesta
quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal decidiu que Lula já poderá começar a
cumprir a pena, mesmo sem ter esgotado suas possibilidades de apelação
judicial. Desde 1980, ele possivelmente nunca esteve tão perto de voltar a
viver em uma cela.
Posse de Lula no
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 1978, dois anos antes da prisão (Foto:
Acervo público Estado de São Paulo)
A hora da onça beber
água
O nervosismo de
Marisa, que morreu em 2017, contrastava com a calma do marido. Lula sabia que,
uma vez iniciada a greve, seria grande o risco de ir para a cadeia. No ano
anterior, ele e toda a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo
do Campo e Diadema (hoje Sindicato dos Metalúrgicos do ABC) haviam sido
afastados dos cargos pelo governo do general-presidente João Figueiredo.
Divididos em relação
ao futuro do regime, os militares estavam unidos em relação ao descontentamento
que pairava no ar: queriam aproveitar a paralisação para quebrar a espinha
dorsal do movimento sindical do ABC, que ressurgira dois anos antes. Líder
emergente, Lula era dos mais visados. Temendo o pior, amigos haviam lhe
aconselhado a deixar o país. Ele se recusara.
A campanha salarial
de 1980 foi cuidadosamente preparada. O sindicato produziu e distribuiu uma
grande quantidade de panfletos, cartazes e boletins que chegam às fábricas (de
forma clandestina) e aos bairros. A pauta de reivindicações incluía reposição
salarial, redução de jornada e liberdades para atuação do sindicato nas
fábricas. Os empresários admitiam, no máximo, repor parte das perdas econômicas.
O impasse estava criado.
A assembleia da
categoria, no dia 16 de março, foi convocada sob o lema “Tá chegando a hora da
onça beber água”. Com uma camiseta que estampava o personagem João Ferrador,
criado especialmente pela cartunista Laerte para as publicações do sindicato,
Lula perguntou à multidão:
– Muitos dizem até
que o empresário tá pobre, que o empresário tá falido, e nós, trabalhadores, é
que somos gananciosos. E eu gostaria de colocar em votação: quem é que concorda
com a proposta dos patrões? (Vaias, gritos) Quem é que quer a greve
segunda-feira à meia-noite? (Milhares de braços se erguem em algazarra).
A greve iniciou-se à
meia-noite do dia 1º de abril. Em segredo, a diretoria do sindicato havia
criado um “grupo especial” destinado a manter o movimento em caso de prisão dos
líderes. A possibilidade de uma nova intervenção do governo nos sindicatos,
como ocorrera em 1979, era cogitada abertamente, a ponto de o ministro do
Trabalho, Murilo Macedo, reagir durante uma entrevista:
– Eu estou achando
que vocês estão com a psicose da intervenção, porque toda vez que vocês me
entrevistam vocês me perguntam se vai haver intervenção.
A prisão dos líderes
e a intervenção chegaram quando a greve completava o 17º dia. Anos mais tarde,
Lula definiria o gesto do regime como providencial:
– O que salvou aquela
greve foi os militares decretarem a nossa prisão. Por incompetência. Eu já não
tinha o que falar na assembleia depois de 17 dias. (…) O patrão não sentava
para negociar, o governo não negociava. (…) Eles prenderam, conseguiram criar
um clima de guerra.
‘Fica tranquila. Não
precisa sofrer. Como diz a minha mãe, as coisas vão melhorar’, disse Lula para
Marisa (no centro da foto, olhando para um papel), antes de ser preso (ACERVO
DO SINDICATO DOS METALÚRGICOS DO ABC)
‘Um líder morto’,
disse Maluf
Um dia antes de os
policiais baterem à porta da casa de Lula, uma concentração de trabalhadores em
frente à sede do sindicato, à espera da chegada dos interventores, havia
terminado em choque com a polícia. Ícone do regime, Paulo Maluf, governador
biônico de São Paulo, dissera na ocasião que o presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos era um “líder morto”. Era exagero.
A imagem de Lula
fichado no Dops, barbudo e desgrenhado, correu o mundo. Mulheres de
metalúrgicos pararam o centro de São Bernardo em caminhadas pela libertação dos
presos. No 1º de maio daquele ano, um ato ecumênico celebrado pelo bispo da
diocese de Santo André, dom Cláudio Hummes, reuniu no simbólico estádio de Vila
Euclides dezenas de milhares de pessoas. No palco, o poeta Vinicius de Moraes,
que morreria em julho, declamou o poema Operário em construção.
Lula passou 31 dias
na carceragem do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) enquadrado na
Lei de Segurança Nacional por liderar o movimento dos metalúrgicos. Durante
seis dias, chegou a fazer greve de fome.
O chefe do Dops,
delegado Romeu Tuma, concedeu ao sindicalista permissão para deixar a cadeia e
participar do funeral da mãe, Eurídice Ferreira de Melo, a dona Lindu. Depois
de passar um período internada em decorrência de um câncer no Hospital da
Beneficência Portuguesa, em São Caetano, ela acabou por morrer no dia 12 de
maio. Lula assistiu ao sepultamento, escoltado por policiais. Na véspera, a
greve terminara. Seu líder seria libertado oito dias depois.
Sobre a preparação
para a prisão, o repórter Ricardo Kotscho, que acompanhou Lula de perto nesse
período, escreveu: “Um amigo perguntou a Lula se ele já havia preparado sua
mala para levar para a cadeia, e ele achou graça: ‘Na cadeia ninguém precisa de
roupa. Eu não vou passear…’ Também não estava preocupado com a família, em caso
de condenação. ‘Aqui em casa cada um sabe o que precisa fazer'”.
No ano seguinte, Lula
ouviu pelo rádio, em casa, o julgamento de seu processo na 2ª Auditoria
Militar, de São Paulo. Como os outros réus e seus advogados, decidira não
comparecer à audiência em protesto contra a arbitrariedade do processo.
Lula e outros 10
dirigentes foram condenados a penas entre dois anos e seis meses de prisão por
“incitação à desobediência coletiva das leis”. Em virtude do não-comparecimento
da defesa, o julgamento foi anulado pelo Superior Tribunal Militar (STM), mas
um novo juízo, em novembro, confirmou as sentenças. Ao julgar um recurso dos
condenados, o STM anulou todo o processo.
Fonte: BBC






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